sábado, 19 de junho de 2010

Psicopata - O Anjo Vingador

“Quem luta com monstros deve velar, para quando ao fazê-lo,

não se transforme também. Porque quando olhamos,

durante muito tempo, para um abismo,

o abismo também olha para dentro de nós.”

Friedrich Nietzsche

Na primeira vez que ela passou por mim eu a olhei bem nos olhos e ela sorriu como se eu fosse alguém familiar. Eu sorri de volta e de maneira convincente - eu imagino - já que me tornei muito eficaz na arte de encenar simpatia e alguns outros sentimentos que, embora eu saiba existirem, jamais experimentei. Há um tempo eu a venho preparando para mim. Utilizando todo o meu repertório de truques e artimanhas para conquistar a sua simpatia. Outro dia esbarrei nela sem querer e deixei cair um punhado de materiais que trazia comigo, e ela num gesto altruísta, como eu esperava, ajudou-me a recolher a papelada espalhada pelo chão. Puxando conversa, disse-lhe após algum tempo, que estava sentido com o fim recente de um relacionamento. Percebi que isto a interessou e ela esticou o assunto fazendo com que eu me abrisse e desabafasse. Assim, fui ganhando a sua confiança e nós nos tornamos íntimos de maneira que ela me confidenciou alguns pequenos segredos sobre a sua vida. Disse-me que até pouco tempo mantivera um relacionamento com um homem de sua relação de trabalho, com o qual rompera. Só omitiu o adultério de ambos, a vagabunda. Obviamente ela nem desconfia que o motivo de ter me conhecido seja estas aventuras e que em breve nós iremos estreitar este nosso curto relacionamento de uma maneira irreparável e profunda. Ela vai marcar a minha existência. Vai dar sentido a ela por um tempo ao menos, enquanto eu definitivamente darei destino à sua por causa dos atos pecaminosos que praticou. Ela é uma ninfomaníaca que está sempre enganando o companheiro com quem divide uma vida e envolvendo-se com homens de todos os tipos. Em suma, ela é pouco seletiva na escolha de seus parceiros de luxúria, ao contrário de mim que só escolho os tipos como ela para outro fim bem específico.

Eu ando entre as gentes, os humanos, falo como eles e me pareço com eles, mas não sou homo sapiens. Meu DNA foi divinamente modificado. Por isso ninguém pode ter acesso a uma amostra do meu sangue. Eu sou um anjo vingador de Deus, concebido para trazer à terra a conseqüência àqueles que atentam contra as suas leis e mandamentos. Sua espada de fogo está em minhas mãos e a mim foi dada a autoridade para trazer a justiça contra as mulheres devassas que profanando o templo sagrado do espírito santo que é o seu corpo, destroem lares através da sua concupiscência e devassidão. Ela não será a primeira a sofrer, através deste mensageiro, a ira do Divino e provavelmente não será a última. Mas a minha missão aqui na terra está terminando e eu, lavado com meu próprio sangue, partirei para a glória junto àquele de quem sou servo leal. A polícia daqui não é das mais brilhantes, mas em breve eu deixarei pistas indubitáveis e estarei pronto e esperando o primeiro e derradeiro confronto.

Por agora me concentro na minha missão atual. Minha percepção aguçada de sobre-humano a detectou com facilidade. Desenvolvi com o tempo habilidades notáveis que me capacitam e me tornam perfeito para a realização desta missão. Eu as identifico e faço uma varredura completa em suas vidas, hábitos, preferências e assim assumo o papel do homem que é capaz de atraí-las facilmente colocando-as na palma de minha mão de maneira que tenho a confiança plena delas. Elas se sentem totalmente seguras comigo e eu posso conduzi-las onde e quando eu bem quiser. Em seguida eu as levo para um local isolado e seguro para mim. Lá eu as coloco inconscientes através de um lenço com clorofórmio no nariz e as imobilizo com fita adesiva larga e realizo o ritual de purificação de suas almas, conforme instruções expressas do anjo Gabriel. Depois, eu as imolo e as abandono num local ermo de maneira que seus corpos apodrecidos sejam encontrados após alguns dias. Junto aos corpos, deixo escrito com o sangue da vítima uma tabuleta de madeira com um versículo da bíblia, que demonstra claramente o motivo pelo qual a pecadora que ali apodrece foi imolada.

Esta é minha “assinatura”, como dizem os especialistas. Aliás, eles adoram rótulos. Rio quando leio nos jornais as tentativas de traço de perfil que são feitas com relação a minha pessoa. Dizem que provavelmente eu sou um fanático religioso e que minhas vítimas, todas mulheres, tem o perfil psicológico parecido com o de minha mãe provavelmente. Pobres diabos ignorantes e imbecis. Minha mãe era uma santa criatura que nunca teve um comportamento devasso e sempre respeitou meu pai. Ela me orientou para o caminho de Deus, me fazendo desde criança ler diariamente a bíblia para conhecer e guardar os mandamentos do Senhor. A pobre teve uma vida terrível e nós, eu e meus dois irmãos também padecemos as agruras de um pai ébrio e drogado que mantinha sempre uma amante e descontava costumeiramente em nós as suas frustrações através de agressões físicas e verbais. Tenho guardado aqui em casa algumas radiografias de fraturas que eu colecionei nestes anos em que meu miserável pai esteve neste planeta. Sou grato a Deus por tê-lo levado com um infarto fulminante e ter permitido a minha pobre mãezinha um descanso nos últimos anos em que esteve comigo aqui na terra. Ele humilhava minha mãe, exibindo pelos bares e botecos da vizinhança as raparigas às quais tratava bem em contraste ao tratamento que dispensava à sua própria família. Foi por essa época que o anjo Gabriel me visitou pela primeira vez e foi gradualmente me instruindo da missão que eu deveria desempenhar aqui na terra a serviço das ordens celestiais. Assim, por ser especial, fui recrutado e treinado como soldado dos céus.

A despeito de todas as dificuldades econômicas pelas quais passei durante minha infância sempre obtive grande êxito nos estudos e com o tempo adquiri certa estabilidade econômica que me permitiu possuir os instrumentos necessários para o cumprimento da minha missão. Comprei uma propriedade rural e construí nela, com minhas próprias mãos e como anexo secreto da casa, um cômodo subterrâneo e acusticamente isolado. É aqui onde novamente trarei a profanadora que observo sorrateiro agora. Depois eu a deixarei apodrecer num terreno baldio localizado a poucas centenas de metros da casa, com mais uma passagem bíblica junto ao corpo. Novamente uma tabuleta trará gravada, junto ao corpo com o sangue dela, a seguinte inscrição: “Tiago 1:15”.

Quando consultarem a passagem na bíblia sagrada lerão o seguinte texto: “Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte”...

Agnaldo Garcia

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Underground


Tenho trabalhado tanto que nem sinto a falta de espaço que sobra nesta pequena quitinete. Só o que sinto é a sua falta. Penso em você nestes dias mesmo quando estou tão cansado que mal ligo a televisão e já desmaio de sono e quando acordo às duas da madrugada ou algo assim, percebo que esqueci até de trocar a roupa com a qual trabalhei o dia todo ontem. Desligo imediatamente o aparelho, imaginando que do outro lado desta parede fina entre apartamentos alguém pode estar incomodado com o som que vaza, já que do meu lado eu às vezes também posso escutar o ruído do meu vizinho que, apesar do tempo em que vivemos próximos eu mal conheço e só devo ter visto umas duas ou três vezes e trocado nada mais do que uma ou duas sílabas apressadas. Imagino se ele ou ela tem alguém que espera o retorno do trabalho e compartilha as pequenas alegrias e misérias cotidianas desta vida ou se, como eu, vive só...

...Tomo apressadamente um banho e depois sorvo o meu café nesta pressa solitária de todos os dias em que milhões de seres humanos espremidos na metrópole paulista vivem. E quando engulo o pão com queijo e margarina em goles de leite com achocolatado estou pensando em você.

Visto o meu uniforme de terno e gravata, pego a minha pasta verificando apressado se não esqueci nenhum documento que irei utilizar hoje. Dou uma última olhada no espelho, ajeito o cabelo com o pente e fecho a porta deste meu apertamento caminhando para o elevador.

Neste momento gosto de fantasiar que se você estivesse aqui comigo, viria até a porta me dar um beijo trazendo o saco de papel com o lanche do almoço que eu, descuidado, esqueceria sobre a pia da cozinha. Depois você me desejaria um bom dia, que eu voltasse logo e nos despediríamos com um beijo suave. E eu sairia feliz.

Aperto o botão do elevador. Do sétimo andar até o térreo foco a cinzenta paisagem da cidade e fico imaginando, só para preencher o tempo, o que você estará fazendo, talvez atarefada nos seus deveres. Se ainda dorme ou, se acordada sonha como eu agora. Atravesso para a rua pelo bonito e frio térreo do prédio enfeitado de estátuas greco-romanas e plantas ornamentais onde, desprentesiosamente, repousam duas poltronas confortáveis em torno de uma televisão onde provavelmente ninguém se senta.

Caminho alguns quarteirões e entro na Paulista em direção à escada do metrô ao encontro de passos atribulados e, pensando em você, nem vejo quando automaticamente desço a escada rolante e me posiciono ao lado da linha junto com mais dez ou doze rostos nos quais busco aqui e ali algum que pareça o seu e só dou conta de onde estou de novo quando o ar frio e encanado do túnel do trem sopra sobre o meu rosto, empurrado pelos vagões que rapidamente se aproximam para vomitar e engolir gente num frêmito de metrópole que tem pressa sempre.

A porta se abre, pessoas saem ligeiramente dos vagões. Vasculho neste instante cada rosto e imagino o seu agora aqui me olhando indiferente como estes. E fico assim curtindo esta dor “que dá bem lá na pontinha do coração”, como você mesmo costuma dizer ou qualquer coisa assim, enquanto em meu ouvido o fone toca “I Dont Wanna Miss a Thing” do Aerosmith e eu me lembro que na outra noite não dormi direito de tanto pensar em você. E sigo sonhando no embalo da música, imaginando você deitada ao meu lado e eu, como na canção, passando a noite em claro apenas observando enquanto você ressona pesadamente e o seu cabelo comprido encobre a sua face. Então, delicadamente para que você não acorde e rompa este momento de magia, afasto os fios do seu rosto para poder observar um sorriso que você deixa escapar pelo canto da boca.

“... I could spend my life in this sweet surrender...” a música continua tocando e eu, perdido em pensamentos, volto à realidade quando o corpo por inércia pende ante a desaceleração do trem que para. Neste devaneio, desço automaticamente na estação Paraíso e tomo a linha Azul.

Atravesso a estação São Joaquim quando me pego falando sozinho. Mas ninguém nota ou se quer se importa quando balbucio o seu nome entre os dentes num sussurro de quem enlouquece frente à solidão desta imensa selva de concreto e ferro sob a qual estou sepultado agora a dezenas de metros de profundidade. Ainda pensando em você acesso a linha vermelha. Na Praça da República desço do metrô e, com pressa, subo degrau por degrau da escada rolante.

Chego ao trabalho e sento na frente do meu PC, começando com um copo de café quente o meu dia de trabalho e mergulho fundo nas atividades dele, porque assim eu sei que durante o dia inteiro eu quase não vou pensar em você, mesmo quando abrir a caixa de mensagens do meu email e, resignado, constatar que mais uma vez não recebi nem ao menos uma mensagem sua.

O dia vai passar ligeiro e transformar-se em semanas e meses. E na minha rotina vou estar em casa depois do trabalho, sempre diante da minha TV assistindo mecanicamente algum programa em alta definição, perdendo a linha de raciocínio e não entendendo aquele filme de suspense, porque eu estarei pensando em você. E a noite vai me alcançar depressa, como tudo que acontece aqui nesta cidade, trazendo junto com ela o entorpecimento do sono.

Aos sábados e domingos eu poderei acordar mais tarde. E enclausurado na minha solidão metropolitana... Vou passar cada o dia me ocupando de coisas triviais...Só para não pensar o tempo todo em você...



Agnaldo Garcia

domingo, 6 de junho de 2010

A Alma da Menininha

Lívia já se acostumara a ver espíritos. Para ela a conexão com o mundo espiritual se dava em banda larga. Quando começou a perceber que tinha este “dom” e aprendeu a observar os sinais que anunciavam quando um fenômeno destes ia acontecer, ela ficava apavorada. Tinha medo de lugares escuros quando estava sozinha e quando sentia aquele familiar arrepio na nuca, fugia do local onde se encontrava e buscava abrigo junto às pessoas ou em ambientes bem iluminados. Imaginava que estas visões e coisas que ouvia, esta conectividade com o mundo espiritual, se dava em decorrência de sua frágil saúde desde a infância. Como passou toda a vida com um pé em cada um dos dois mundos, nada mais natural que as duas dimensões se mostrassem a ela, conjecturava.

Quase sempre quando passava por uma destas experiências, guardava para si, receosa de que as pessoas pudessem julgá-la fora de juízo.

As coisas tomaram maior proporção na vida adulta, numa época em que ela cuidou de uma mulher conhecida sua que sofria de um terrível câncer que a consumiu por dentro. Lívia, bondosa que era, cuidou da pobre enferma até aproximadamente um mês antes de seu doloroso falecimento, sendo depois substituída por uma enfermeira em função da necessidade da doente de drogas pesadas para aliviar as terríveis dores das quais passou a sofrer com o avanço da enfermidade. O fato é que Lívia também estava exausta com os cuidados que dispensara à paciente e devido a sua saúde frágil já não conseguia cuidar da pobre enferma. Também ficou emocionalmente muito abalada já que era pessoa de sua convivência e a doença fez com que as duas se afeiçoassem mais.

Enfim a mulher veio a óbito. Na noite após o sepultamento, Lívia, apesar de exausta, não conseguia pegar no sono. Deitada ao lado do marido, que dormia profundamente, ela sentiu sede e levantou-se para beber água. Na volta para cama, ao passar pela sala, viu estarrecida, a falecida que a observava pelo vidro da janela. Em pânico ante a visão aterradora de um cadáver, ela corre para a cama e chama por diversas vezes o marido que, em sono profundo, não desperta. Lívia se joga embaixo das cobertas, cobrindo-se até a cabeça. Mas a defunta a persegue até o leito e, com as mãos estendidas, implora por ajuda.

A partir deste episódio apavorante, as visões tornaram-se mais nítidas e freqüentes, principalmente quando a passagem para o outro lado era de alguém muito próximo, como uma pessoa da família. De uns anos para cá, a morte de alguém próximo a ela era prenunciada pela aparição de uma garotinha loira de cabelos cacheados e muito bonita, aparentando uns quatro ou cinco anos, trajando um vestido vermelho longo até a canela e carregando uma flor belíssima, semelhante a uma rosa, em sua mão. Foi assim quando faleceu a filha de um tio querido de seu marido e também quando faleceu seu sogro há quem ela muito estimava.

Os anos se passaram e a saúde de Lívia ia gradualmente se deteriorando. Já há algum tempo, porém as visões tornaram-se menos freqüentes e já não via a garotinha há algum tempo já que neste intervalo não tivera a infelicidade de perder alguém próximo. Num dia de faxina Lívia estava lavando a garagem de casa quando percebeu que próximo a ela apreciam passos de criança no chão molhado. Ficou curiosa ante aquele fenômeno porque realmente não havia nem uma criança no local, mas logo entendeu o que estava ocorrendo, pois sentiu uma presença que a muito não sentia. De súbito, veio-lhe uma pontada lancinante no peito e sua visão turvou-se como se alguém houvesse apagado a luz do mundo. Chamou por socorro e foi acudida pela vizinha que varria o quintal e por cima do muro viu que Lívia havia sentado na garagem com a mão ao peito.

Nisto, Lívia sentiu que a dor foi desaparecendo e sua visão voltou ao normal. Na verdade não se lembrava de sentir-se tão bem o quanto se sentia naquele momento. Com sua visão agora misteriosamente apurada percebeu de relance que havia alguém ao seu lado. Quando se virou, reconheceu a imagem da garotinha que já há algum tempo não via. Ela só lhe sorriu e estendeu a mão. Lígia levantou-se apoiada sentindo-se leve naquele momento. A sua frente havia uma luz brilhante como ela nunca havia visto antes e sentiu que a garotinha a puxava de encontro àquele brilho intenso que a atraia também tamanha a paz que ela sentia quando o mirava.

Olhou para trás e teve ímpeto de voltar quando se lembrou de seu esposo e filhos que percebia estar deixando, mas sabia que era preciso continuar em direção à luz, aquela luz tão bela que a conduzia por uma espécie de túnel cujas paredes pareciam cimentadas de éter apenas. Voltou-se para a garotinha ao lado que serena a olhava com compaixão e familiaridade como se a conhecesse já de muito tempo. Num instante, se achou no fim do túnel onde viajava e saindo para um lindo jardim com flores parecidas com rosas, como aquelas que a garotinha trazia consigo quando a visitava. Olhou para o seu corpo e não reconheceu mais a mulher de quarenta e tantos anos, mas ele estava transfigurado agora também numa garotinha como a que lhe dava as mãos.

A menina apanhou uma flor do jardim e lhe deu. Caminharam para junto de algumas pessoas que pareciam aguardar por Lívia. Reconheceu seus entes queridos que já haviam partido e abraçou cada um deles longamente, cheia de saudades...

Agnaldo Garcia

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Saber Viver

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar
Cora Coralina

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Você Aprende...

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança ou proximidade. E começa aprender que beijos não são contratos, tampouco promessas de amor eterno. Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos radiantes, com a graça de um adulto – e não com a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, pois o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, ao passo que o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol pode queimar se ficarmos expostos a ele durante muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe: algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai ferí-lo de vez em quando e, por isto, você precisa estar sempre disposto a perdoá-la.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que se leva certo tempo para construir confiança e apenas alguns segundos para destruí-la; e que você, em um instante, pode fazer coisas das quais se arrependerá para o resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias, e que, de fato, os bons e verdadeiros amigos foram a nossa própria família que nos permitiu conhecer. Aprende que não temos que mudar de amigos: se compreendermos que os amigos mudam (assim como você) e perceberá que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou até coisa alguma, tendo, assim mesmo, bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito cedo, ou muito depressa. Por isso, sempre devemos deixar as pessoas que verdadeiramente amamos com palavras brandas, amorosas, pois cada instante que passa carrega a possibilidade de ser a última vez que as veremos; aprende que as circunstâncias e os ambientes possuem influência sobre nós, mas somente nós somos responsáveis por nós mesmos; começa a compreender que não se deve comparar-se com os outros, mas com o melhor que se pode ser.

Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se deseja tornar, e que o tempo é curto. Aprende que não importa até o ponto aonde já chegamos, mas para onde estamos, de fato, indo – mas, se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar servirá.

Aprende que: ou você controla seus atos e temperamento, ou acabará escravo de si mesmo, pois eles acabarão por controlá-lo; e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa o quão delicada ou frágil seja uma situação, sempre existem dois lados a serem considerados, ou analisados.

Aprende que heróis são pessoas que foram suficientemente corajosas para fazer o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências de seus atos. Aprende que paciência requer muita persistência e prática. Descobre que, algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, poderá ser uma das poucas que o ajudará a levantar-se. (…) Aprende que não importa em quantos pedaços o seu coração foi partido: simplesmente o mundo não irá parar para que você possa consertá-lo. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar atrás. Portanto, plante você mesmo seu jardim e decore sua alma – ao invés de esperar eternamente que alguém lhe traga flores. E você aprende que, realmente, tudo pode suportar; que realmente é forte e que pode ir muito mais longe – mesmo após ter pensado não ser capaz. E que realmente a vida tem seu valor, e, você, o seu próprio e inquestionável valor perante a vida.

Willian Shakespeare

domingo, 23 de maio de 2010

Desejo a Você

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar

Victor Hugo

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Epifanias

Você se apóia no que acredita. Fecha os olhos segue em frente esperançoso de que se pode alcançar boa ventura à frente. Conta com a falta de memória para esquecer que não é eterno e num vapt-vupt a vida lhe será ceifada já que ela nunca foi sua e pode ter sido emprestada por uma entidade celestial que se você for veramente sincero consigo, por mais crente que seja, um dia duvidará que exista. Vai se esforçar para estar bem sempre, jovem. Mas o espelho, cedo ou mais tarde vai lhe mostrar um rosto envelhecido que você reconhecerá como o seu.

Sabe que a vida ainda lhe dará boas e más notícias e que se você quiser que algo não aconteça é só desejar do fundo do coração, mas com um pouco de sorte e capacidade de se colocar no lugar do próximo, esquecendo um pouco do próprio umbigo, talvez você se veja cercado de algumas pessoas que realmente apreciam o seu modo de ser e aos quais você poderá chamar de amigos, inclusive alguns seus familiares. Mas seja razoável e leve em consideração o fato de que mesmo as pessoas mais consanguineamente chegadas a você podem te decepcionar ou magoar e vice-versa, de tal maneira que nem mesmo depois de muito tempo seja possível superar.

Aceite que algumas pessoas, de uma maneira inexplicável, conseguem atingir objetivos com muita facilidade enquanto para você tudo parece incrivelmente difícil e as vezes você vai ter que se esforçar tanto que quando chegar ao topo da montanha que estiver escalando, vai estar tão cansado que nem conseguirá apreciar o espetáculo maravilhoso de um por de sol acima das nuvens.

Não ignore a possibilidade grande que existe de não viver nunca um grande amor, embora ele sempre esteja à venda na loja de conveniência mais próxima. E se isso de fato acontecer, tenha certeza: provavelmente, a maioria das pessoas ao seu lado são vítimas do mesmo destino, porque a vida é assim. Lembre-se que o tempo é remédio e o distanciamento da fonte, por mais que aumente a dor no início, é um lenitivo necessário em longo prazo.

Preocupe-se menos, porque como a sua própria experiência mostra, já que você ainda está a salvo lendo estas linhas, a maioria das enrascadas em que a vida ou nós mesmos quase sempre nos colocamos podem ser solucionadas com um pouco de esforço e auto-persuasão e às vezes, o diabo realmente não é tão feio como nos fazemos ou nos querem fazer acreditar. Procure sempre deixar as portas abertas pelos lugares e com as pessoas que conhecer porque realmente, com exceção de Nostradamus e mais meia dúzia de profetas, não podemos prever o dia de amanhã.

Não odeie tanto ninguém nem leve nada tão a sério porque afinal quando olhamos os fatos através dos óculos do tempo os problemas e atritos parecem muito menores, principalmente se considerarmos o quão ínfima é esta nossa existência. Não ria feito idiota o tempo todo de tudo, mas procure manter sempre o bom humor porque afinal, se não resolver para nada prático ou imediato, lembre-se: sorrir faz bem para a saúde, e portanto prolonga a vida.

Procure não desprezar nunca a possibilidade de se reunir com pessoas as quais você estima, porque é muito triste e definitivo lamentar não tê-lo feito no dia em que estiver diante desta pessoa num destes velórios da vida. Seja otimista, prepare-se sempre para o pior, mas espere o melhor. Assim, se você estiver preparado, nada vai parecer tão difícil de superar porque você não será pego de surpresa.

Ame e respeite a sua família acima de tudo, até acima do Corinthians, porque se você for um bom marido, ótimo pai, irmão amigo e filho extremoso, eles te honrarão e cuidarão de você até o fim de seus dias.

E por fim deixo para você a filosofia de vida que eu aprendi de um tio meu. Ele perdeu os seus filhos jovens de maneira abrupta cada um de modo diferente e seu corpo agora é assolado por muitas enfermidades. E quando alguém lhe coloca num assunto algo desagradável ou situações terríveis que escapam a nossa capacidade de resolução, ele simplesmente balança os ombros e replica numa voz cortada de quem já sofreu vários derrames cerebrais:

“Fazer o quê?”...

Agnaldo Garcia

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Náufrago

Josué levantou-se do tronco próximo a fogueira que havia feito para encarar a escuridão da noite estrelada e sem lua. Algumas nuvens bem esparsas, coloridas de amarelo-vermelho-roxo davam um aspecto muito bonito ao pôr-do-sol daquele dia. Caminhou até o limite onde as ondas quebravam na praia como que para admirar mais de perto o sol fritando a água no horizonte. A água fria do mar quase tocava os seus pés e o vento, que vinha da praia para o oceano, soprava em suas costas e fazia o seu camisolão branco de mangas longas agitar como uma bandeira tremulando. Sentiu um arrepio de frio e instintivamente se reaproximou do calor da fogueira que crepitava com o estalar da madeira e emitia pequenas fagulhas que impulsionadas pelo vento iam se suicidar nas minúsculas gotículas de água do mar. No céu algumas estrelas já mostravam um brilho tímido, como se pedissem passagem ao sol que já se retirava. Suspirou de saudade de coisas que não se lembrava, mais tinha certeza: estavam presas em algum arranha-gato de sua mente.

Tentava buscar na memória quando e como viera parar ali, mas o fato era que não conseguia lembrar-se de nada que deveria ter ocorrido neste passado recente, que explicasse o fato de ele ter acordado naquela linda ilha deserta, deitado de barriga para baixo, trajando aquela mesma roupa que estava usando agora, e com o rosto ao chão encostado em uma das faces que tocava a areia. Levantou-se confuso e desorientado ante a paisagem que se apresentava. Teria sido deixado ali por alguma embarcação? Por que motivo? Talvez tivesse nadado até a praia ou se agarrado a alguma parte de um navio que afundou ou um avião que poderia ter feito um pouso forçado na água. “Não... Não com esta roupa”, pensou. Ponderou também que se tivesse havido um naufrágio deveria haver algum resquício do acidente na praia, mas nunca conseguiu achar um indício de que isso tivesse ocorrido. O fato é que, simplesmente, não se recordava de nada até antes do momento em que acordou embaixo daquelas palmeiras na praia, já com o sol no meio do céu.

Também não conseguia precisar quantos dias estivera ali, náufrago naquela ilha. Mas não sentia angústia ou tristeza, apenas saudade dos entes queridos que deixara em alguma direção daquela imensidão de mar. Os pés pisavam tranquilos os finos grãos de areia da praia e o sol brilhava calma e suavemente. O calor era amainado por uma brisa mansa que soprava do mar pela manhã. O branco alvíssimo da areia que fazia contraste com o mar de um azul que ele não vislumbrara nem em comerciais de televisão trazia uma paz e calma que ele não conseguia descrever ou explicar. Numa incursão pelo meio da ilha ele descobriu uma pequena queda d’água que formara uma piscina natural de água fresca onde ele podia se banhar e matar a sede. Enfim, achava-se se aprisionado num lugar paradisíaco onde passava os dias matutando sobre a sua vida e o tempo parecia fluir peculiarmente descompassado.

Assim, absorto em seus pensamentos, Josué nem percebeu quanto se sentou no tronco próximo a fogueira e já mirava o infinito acima, porque o sol já se havia posto no horizonte, deixando apenas um borrão de luz que ia atenuando e dando lugar a total escuridão da noite. Deitou-se para poder admirar melhor aquele céu, que a esta altura ia se borrando de milhares e milhares de estrelas, formando um espetáculo inimaginável para quem sempre viveu na poluição das cidades. Seu corpo foi tomado de um torpor que quase não o permitia sentir as extremidades das mãos e dos pés. Decidiu que iria dormir ali mesmo próximo a fogueira e deitado, jogou sobre si uma manta de lã que estava dobrada e aquecida próxima da fogueira. Diante daquele espetáculo, em meio aos meteoros que riscavam o céu arremetendo contra a terra, sentiu-se só. Suas lembranças voltaram-se então para a sua família. O que estariam fazendo neste momento sua mulher e filhos? Estariam à sua procura? Será que pensavam nele naquele momento? Lembrou-se da mãe velhinha e do seu pai e sobrinho que haviam falecido já há algum tempo. Sentiu saudades e os olhos marejaram.

Abstraído assim em pensamentos, ignorava completamente os sons que a natureza fazia à sua volta até que, de sobressalto, percebeu um estalo que ressoava próximo a ele ao lado esquerdo depois da fogueira, onde se encontravam algumas folhas mortas de palmeira. Girou rapidamente a cabeça para onde tinha ouvido o estalo e quando sua visão foi se acostumando com o ofuscamento causado pela fogueira percebeu, com espanto, um vulto que parecia caminhar lentamente em sua direção. Num impulso saltou rapidamente e postou-se ereto, de frente para o vulto. Agora percebia claramente tratar-se de uma pessoa, trajando calça e camisa branca como a areia da praia. Notou também que andava descalça. Quando os olhos se adaptaram de vez ao contraste da luz da fogueira com a escuridão, pode ver o rosto de um rapaz. Reconheceu de pronto Rafael, o sobrinho querido que havia falecido num acidente a poucos anos atrás. Estranhamente não sentiu medo, caminhou ao seu encontro para lhe dar um abraço. Sentiu vertigem e tonto caiu na areia, de frente para o mar, aos pés do rapaz que olhava agora fixamente para ele e pronunciou numa voz familiar, que já não ouvia há algum tempo, quase sorrindo:

___Tio, você precisa voltar, ainda não chegou a sua hora.

Ainda tentava entender o significado daquelas palavras, quando atônito olhou para o mar a sua frente. A paisagem ia gradativamente se modificando. O azul do céu transformou-se numa parede de tijolos e o branco da areia em um desalinhado lençol branco de hospital. O rosto à sua frente sorridente já não era mais o do sobrinho falecido, agora fitava sua filha Rebeca que com espanto alertou o resto da família no quarto que o pai acabara de retornar do coma.

Compreendeu naquele instante que havia acabado de viver uma experiência de quase morte.

"Para meu querido tio Sidiko Garcia, poeta e compositor, que sofreu um acidente de automóvel anos atrás e viveu experiência semelhante"

Agnaldo Garcia

domingo, 25 de abril de 2010

Poema de Aniversário

Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte…

Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.

Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranqüilo mar de ilha em que me perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima — estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito.

E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos saltos dançarinos para alcançar folhas, aves, estrelas — e a ti mesma, luminosa, a derramar claridade em mim menino.

Ah, pudesse eu dar-te o meu primeiro medo e a minha primeira coragem; o meu primeiro medo à treva e a minha primeira coragem de enfrentá-la, e o primeiro arrepio sentido ao ser tocado de leve pela mão invisível da Morte.

E o que não daria eu para ofertar-te o instante em que, jazente e sozinho no mundo, enquanto soava em prece o cantochão da noite, vi tua forma emergir do meu flanco, e se esforçar, imensa ondina arquejante para se desprender de mim; e eu te pari gritando, em meio a temporais desencadeados, roto e imundo do pó da terra.

Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-la com tudo o que nela havia de silencioso e inefável — o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.

E também o instante anterior à tua vinda, quando, esperando-te chegar, relembrei-te ainda adolescente naquela mesma cidade em que te reencontrava anos depois; e a certeza que tive, ao te olhar, da fatalidade insigne do nosso encontro, e de que eu estava, de um só golpe, perdido e salvo.

Quisera dar-te, sobretudo, Amada minha, o instante da minha morte; e que ele fosse também o instante da tua morte, de modo que nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos em nosso descenso uma só eternidade; e que nossos corpos fossem embalsamados c sepultados juntos e acima da terra; e que todos aqueles que ainda se vão amar pudessem ir mirar-nos em nosso último leito; e que sobre nossa lápide comum jazesse a estátua de um homem parindo uma mulher do seu flanco; e que nela houvesse apenas, como epitáfio, estes versos finais de uma canção que te dediquei:


... dorme, que assim
dormirás um dia
na minha poesia
de um sono sem fim...

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Permita-me (Aos Noivos)

Suave e indispensável como o vento

Que eu seja sempre assim

Permita que eu seja sempre

Que eu num assopro leve embora a tua angústia

E que o teu fardo pese em parte nos meus ombros

Permita que o meu abraço e o meu afago

Afaste o medo na escuridão da noite

Que a minha lâmpada ilumine o teu caminho

Que eu seja a bússola que indica a tua direção

Permita-me contar os teus cabelos brancos com os anos

Que eu seja o bálsamo na tua enfermidade

Que eu contemple teus sorrisos de alegria

E enxugue com minhas mãos as tuas lágrimas de tristeza

Até e além do fim de nossos dias...

Aos noivos Felipe e Ariane – 03/04/2010

Agnaldo Garcia

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Vento Solidão

Que bom que seja assim de vez em quando

Só eu e o vento soprando da janela

Quando a cortina na alma se levanta

E tudo fica nítido, água cristalina

Bendigo a quietude que me acerca nestas horas

Pois sem a solidão necessária, o espírito desencontra...

Mesmo nestes instantes teu silêncio grita

E então é só o que eu consigo ouvir

A saudade purifica de bem querer a alma

A reflexão redime, mostra o caminho

E o menino que brinca na luz de dentro

Conduz o homem que tateia a escuridão de fora

Assim posso conceber que durante esta jornada curta

Fui apenas lusco-fusco, crepitar de uma fagulha

E se brilhei assim, breve mas intenso

Foi para iluminar o meu caminho até você

Agnaldo Garcia

sábado, 17 de abril de 2010

Soneto de Aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece…
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Para Sebastião Rodrigues

“Antes todos os caminhos iam

Agora todos os caminhos vêm

A casa é acolhedora, os livros poucos

E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas”

Envelhecer – Mario Quintana

Foi num dia comum sem nenhum agouro ou aviso que a estrela de Sebastião se apagou. Não se pode dizer exatamente que morreu. Porque morrer geralmente implica em algo trágico e rápido ou numa lenta agonia, uma doença incurável, desengano da medicina, um bater de botas, ir antes da hora, ou qualquer coisa assim que as pessoas dizem na hora da morte para preencher o espaço vazio de perplexidade de saber que o outro simplesmente, inaceitavelmente, um dia deixou de existir. Acho que aceitar este fato é bem pior que aceitar a morte física, o apodrecer do corpo. Eu penso que todas as religiões no mundo existem por causa da incapacidade do homem de aceitar o fim da consciência.

Mas, sem querer abusar de eufemismos, meu avô Sebastião foi parando aos poucos, lenta e inevitavelmente caminhando para um nível zero de energia de modo que a sua partida já era algo mais ou menos anunciado pelas pessoas que o acercavam. Apenas há poucos anos atrás ele era um ancião já de corpo alquebrado e movimentos limitados, mas de mente aguda e uma memória de longo alcance típica das pessoas desta idade, dotada de grande e invejável capacidade de relembrar em detalhes os fatos passados que ele sempre rememorava quando eu ou outra pessoa mais íntima ia visitá-lo. E eu ouvia com paciência, embora já conhecesse de cor e salteado, os “causos” que ele contava saudoso da época em que era colono das fazendas de café daqui do interior paulista. Seus jogos de futebol, contos de assombração que ele ou um compadre presenciara, as aventuras e peripécias nas roças de café, excetuando alguns trechos confusos de memória que ficaram comigo e outros parentes, perderam-se para sempre quando a mente única de Sebastião deixou de existir. Mas dele também ficou outra coisa importante, que talvez eu aqui refletindo ouso dizer que seja a maior herança que se deixa quando findamos nossa existência deste planeta: um testemunho digno de vida. Sebastião não foi ninguém importante, ao menos na concepção gauche que damos à importância. Nenhuma rua, nem avenida ou praça terá seu nome e acredito que quando os seus entes mais próximos se forem sua passagem aqui na Terra não terá deixado nenhum vestígio. Quando vim ter a este mundo, Sebastião já era idoso e assim é que guardo em minha mente a imagem do meu avô velhinho, um legítimo descendente de uma mistura do escravo negro africano com o branco europeu. Confesso que nunca conheci pessoa tão justa e sensata quanto ele porque em todos estes anos de convivência nunca o vi se exaltar sem justo motivo ou não contra qualquer pessoa. Também nunca o ouvi dizer eu te amo a ninguém, mas sabia que ele me amava, assim como amava suas filhas e filho, seus outros netos e demais entes queridos porque ele fazia de gestos palavras como todas as pessoas simples da sua geração. Quando eu mais precisei de abrigo num momento difícil do meu final de adolescência, Sebastião meu avô me estendeu a mão e nunca me fez sentir que estivesse em débito algum com ele por causa disso.

Era triste ver Sebastião nos últimos anos, aquela mente que antes era cheia de vivacidade e possuía uma maneira positiva de encarar a vida, aos poucos perdendo a lucidez. Nos últimos anos, excetuando raros momentos de sobriedade, Sebastião já não contava os seus causos e anedotas, somente se limitava a responder laconicamente, quase resmungando, quando era questionado sobre algum fato.

Sebastião Rodrigues nasceu em 1920 no Rio de Janeiro, segundo ele mesmo contava. Desde pequeno trabalhava como colono nas fazendas de café. Quando era bem jovem ainda perdeu o seu querido e saudoso irmão mais velho vítima de pneumonia, a AIDS do início do século vinte. Aprendeu a ler e escrever e fazer contas tomando algumas aulas particulares e através da ajuda de amigos. Casou-se, como era costume da época entre as pessoas pobres, fugindo com Maria Garcia, minha avó materna, que morreu cerca de 10 anos antes dele, vítima de enfisema pulmonar por causa do tabaco. Trabalhou nas lavouras de cana-de-açucar da região central do estado de São Paulo, depois que os cafezais cederam lugar às plantações desta cultura. Era admirador entusiasta de Getúlio Vargas e teimoso nas suas convicções. Teve cinco filhas e um filho, muitos netos e bisnetos que choraram tristes no dia que seu corpo foi sepultado. Um lindo e triste sábado de chuva.

Agnaldo Garcia

sábado, 10 de abril de 2010

Extremos da Paixão

Não, meu bem, não adianta bancar o distante

lá vem o amor nos dilacerar de novo...

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.

No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira:compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe,berrando de pavor para o mundo insano,e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó.O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya,ilusão,passatempo.E exigimos o terno do perecível,loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolosem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

Caio Fernando Abreu